Entrei em crise
- 20 de out. de 2017
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Entrei em crise. Chorei até sentir uma pontada de dor na testa. Os olhos estavam doloridos para poder enfrentar algum objeto luminoso ou qualquer coisa que viesse emitir luz. Até os ouvidos estavam receosos a algum barulho. Estava de madrugada. Enquanto muitos dormiam ou faziam algo que sintam prazer, ou, até, poderiam estar que nem eu, mas, mesmo assim, o estado depressivo seria diferente. Sentia-me um pacote de biscoito vazio jogado pela janela de um ônibus por alguém que não se preocupa em estar fazendo certo ou não. Enfim, por mais que eu estivesse em conflito emocional pelos sentimentos conturbados de melhores escolhas e melhores atitudes, ninguém é um lixo, inclusive eu. Nem o assassino mais inescrupuloso é um lixo de fato, então, por que eu estaria ali me sentindo assim?
Passou-se um tempo, reorganizei meus pensamentos. Poderia, eu, ter ficado melhor, porém me inquietei mais. Só que nessa inquietude foi onde encontrei alguma paz para poder entender o que se passava e poder seguir em frente de forma mais tranquila. Nessa hora, eu me lembrei do Chapolin Colorado, que assistia quando era criança: "Oh, e agora? Quem poderá me defender?". Eu. Só eu entendo o que passa dentro de minha cabeça. Nem hipnólogos e psicólogos, por mais que eles possam ajudar, poderiam me defender. Procurava respostas no tarot, como se o místico fosse acalmar a alma inquieta que eu possuía naquele momento. Chorei mais um pouco. Tentei me comunicar com alguém importante, mas esta estava ocupada demais em sua própria crise existencial, que esta deveria se ajudar e não a mim. Outra pessoa, importante e cativa, também, por mais que dissesse e quisesse se fazer presente, ausentou-se. Via-me só e estava tudo bem, até. Era melancólico e doloroso o que estava passando. Um sentimento ruim e complexo, que eu tentava extrair alguma reflexão boa, daquilo tudo. Lembrei-me daquele ditado que dizem que são com as dores que aprendemos a nos curar. E realmente eu devo pensar que seja assim. A humanidade é cheia desses gatilhos e peripécias que ainda nos espanta, como se fosse algo novo. Foi quando eu percebi que estava bem, no final das contas. Afinal, ainda tenho consciência de muitas verdades sobre o que há. As pessoas se perdem por tão pouco, todavia esquecem que podem encontrar-se com a mesma facilidade. Elas estão em conflitos até por menores ou maiores crises, por menores ou maiores devaneios. E nesse fluxo de pensamento, percebia que o que me incomodava não era tanto o que eu fazia ou não, mas sim, o que eu deixava de fazer. Como também, com o que as outras pessoas deixavam de fazer.
Culpava-me por procrastinar uma tarefa. Levou-me ao pensamento do que acreditam ser essa ação. Alguns, acham que a procrastinação é pura preguiça ou um ego arrogante demais que acha a tarefa insignificante e, por isso, dará conta de fazê-lá as pressas. Leviano infortúnio pensar assim! Aqueles que procrastinam estão em um duelo de vontades e pensamentos. Sabem que terão paz e sossego ao terminar a tarefa a ser feita, mas não a fazem porque esta não os preenchem de emoções positivas no momento em que podem ter feitos muito espiritualizados agradavelmente no lugar da tarefa. A tarefa torna-se uma prisão libertadora para o procrastinador, pois com esta tarefa, terá um parâmetro à atitudes prazerosas que o fará melhor que aquela. E assim, ele segue comparando e, sendo, até, feliz, mesmo frustrando-se por se ver enjaulado em uma tarefa que poderia já ter se livrado.
Por essa reflexão, dou-me conta de que o ser humano normalmente vive de maneira hedonística e nem percebe isso. Vive dizendo que faz as coisas porque quer, que nem criança mimada e birrenta a fazer seu show para ganho de atenção. Alguns, até, procuram o porquê dessas escolhas, desses quereres. Muitos dão desculpas ridículas para continuarem a fazer o que fazem, sem se tocarem que é por puro prazer. Mas mesmo assim, os prazeres tem suas razões. A humanidade poderia saber dessas razões, mas ela vive em fuga das realidades. As pessoas preferem ser escapistas e viverem em ilusões precoces, do que buscarem enfrentar seus problemas e conhecerem a si mesmos nem que seja um pouco mais. Não é a toa que bares estão sempre lotados, nas mesas, copos cheios de alguma bebida tóxica, ou vazios mesmo, mas estes últimos, são daqueles que estão a enchê-los novamente de forma exagerada. Esse exagero é onde está o problema. Uma desmedida e distanciamento do que realmente querem. Por que será que o consumo de entorpecentes vem aumentando? Por que será que a juventude, no momento de suas descobertas, se vêem em situações autodestrutivas como essa ou piores? Cadê, as pessoas se doando mais? Meditando ou fazendo algo que ajuda no autoconhecimento, e resolver, assim, seus mistérios problemáticos?
É, o ser humano é um bicho estranho. Normalmente a gente se culpa ou se condena por isso. Entre vícios e virtudes, o ser humano está mais viciado do que virtuoso. Por isso, existe a misantropia. Não por falta de tentar amar o próximo, outrem. Mas pela falta de amar a si mesmo e buscar melhorar o que poderia. Entre desafetos autodestrutivos ou procrastinação persistente, o ser humano poderia evoluir, mas muitos insistem em retroceder, como se no passado estivesse a solução do quebra-cabeça. Mas, talvez, até, estejam certos. Pelo inconsciente coletivo, voltar às origens possa ajudar a resolver os desconhecidos enigmas. Porém, uma parcela de pessoas acredita, de forma esperançosa, que evoluir e transcender é que possa solucionar. Mesmo sabendo que aquele que acredita no percurso e tanto no que foi e no que será, ainda há que se descobrir. De alguma forma vai dar certo, diz o otimista. Já eu reluto em acreditar que seja assim e penso que é preciso estar dando certo, pois se não estiver, ocorrerá algum desequilíbrio emocional. Nesses casos é melhor começar a rever, ressentir e repensar. Só vai dar certo, se estiver dando desde de agora. Portanto, qualquer um deveria deixar de viver maquiavelicamente, pois os meios que justificam os fins, não o contrário. Acreditar que vai dar certo motiva e acalenta, todavia é mais certeiro já começar acertando no processo até a conclusão.
E, assim, as pessoas vão tentando sobreviver às suas crises, idas e vindas, desencontros e reencontros. Alguns bebendo algum litro barato que tenham em casa. Outros comendo algo demasiadamente ou assistindo compulsivamente algo no Netflix. Eu vou tentando encarar e, dessa maneira, fui escrevendo essas ideias antes de dormir. Como para muitos apegados as comunicações, a escrita pode ser uma meditação, um mantra que faz acalmar, essa última parte, ao menos para mim. E assim, dormi esperando encontrar a melhor decisão em sonho, afinal o sonho ainda é uma realidade. E não quero fugir dela. Realidade que é mais sóbria que muitos porres, mais lúcida que muito demente, mais íntima do que um amante, mais nua do que a própria nudez. A realidade mais frágil, mesmo assim, a mais corajosa e acolhedora. E de uma crise dolorosa, peguei-me fazendo uma coisa que me define: escrevendo. Pois como falei acima, são com algumas dores que aprendemos a nos curar.





















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