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Amor é saúde

  • 20 de out. de 2017
  • 2 min de leitura

"Escreva o que você está sentindo"


Sentiu a moça que, de pensamentos acelerados, chorou. Era tudo muito rápido e cheio como metrô. Era tudo amargo e denso, como café forte requentado no dia seguinte. Ela não podia ser sincera com quem lhe era. Isso era um pesar. Também não podia correr atrás do que parecia ser mais atrativo. Não podia fugir, porque feria pessoas. Não podia gritar, porque sua voz tinha sido tomada. Era mais sufocante do que prender o fôlego pra manter a calma. Era uma avalanche de emoções que lhe tirava o sossego.


De seus piores tormentos, sentia vontade de definhar. Suas atividades, ela boicotava. Não havia ânimo. Tudo estava morto. Como se simplesmente sua aflição fosse maior que ela. Mas ela se deu conta do quão mal ela fazia a ela mesma. Quis se drogar. Não das drogas que se tem má fama. Quis se viciar em amor. Beijou rapazes. Beijou moças. Beijou quem conhecia e desconhecia. Porém, não se beijou. Procurou em todas as esquinas e bares, amor. Embebedou-se de fracos amores. Embriagou-se de poucos prazeres. Sentiu-se mais vazia do que o vazio. Nesse pesadelo real, não se perdeu. Respirou fundo, sentiu o vento gelado bater no rosto em um dia qualquer, desses dias que não se espera nada importante, e de um espanto próprio, ela sorriu.


O que havia feito ela florescer, ninguém sabia. Nem ela mesma. De todas as dúvidas, só restou a certeza de que tinha algum sentido, mínimo que fosse. Acreditou em alguma melodia que penetrou seus tímpanos e, por dentro, a calmaria começou reinar. Nada de pensamento turbulento ou coração apertado. Nada de respiração ofegante e olho úmido. Nada mais de choro. Ela se bastou. O que estava morto só ela podia reviver. O que ela desconhecia só ela podia descobrir. O que ela tinha medo só ela podia encorajar. O que estava triste só ela podia divertir. Se em seus olhos há universos, o que já era abrigo, veio a acolher. O mundo sem ela podia ser o mesmo. Contudo, ela sem se preencher dela mesma, não viria a existir. Viria padecer em um pedaço de matéria que sem ela ficava amorfa. E nesse preenchimento apaziguador, ela pode perceber que não se drogava de amor, porque amor não seria uma droga ou um remédio, afinal não é o amor que cura. É conhecer-se em multidão ou solidão. É ver-se liberto ou preso. É imaginar o que não se narra. É experimentar-se do que já foi provado em hipótese. Amor é saúde. É preciso curar-se primeiro para abastecer-se de amor.


Depois de vidas em soluços e rotinas obscuras, ela pode escrever o que estava sentindo em um papel que encontrou por onde andava: "eu me sinto, por isso irei me escrever. Afinal, qualquer escrito revela o escritor ou o escritor revela inscritos em um amórfico desconhecido?". A partir desse questionamento, ela partiu narrando o que estava sentindo. E eu como narrador só pude observar o quão isso a fazia feliz. Ela ficou corada de tanta saúde, pois de amor ela veio se abastecer.

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